Sarah Oliveira: espontaneidade do Tiny Desk faz falta na indústria musical

Apresentadora conduz entrevistas com artistas escalados para a versão brasileira do programa da NPR

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Foto do autor Igor Ribeiro
Atualização:
Foto: Rádio Eldorado
Entrevista comSarah Oliveiraapresentadora do Tiny Talks

O Tiny Desk Concerts chega ao Brasil consagrado por uma audiência de mais de 3,5 bilhões de visualizações globais e versões internacionais na Coreia do Sul e no Japão. Quando começou em 2008, porém, não havia qualquer expectativa parecida. A NPR, rádio pública dos EUA onde o projeto foi criado, simplesmente aproveitava a passagem de músicos por Washington DC para “darem uma canja” nos estúdios da emissora. O projeto cresceu, ganhou mais câmeras, produção profissional e lugar cativo no YouTube. As entrevistas eram aproveitadas na programação da própria rádio e em podcasts.

No Brasil a NPR não tem dial. Mas o YouTube hospeda as entrevistas. Chamadas Tiny Talks, são conduzidas por Sarah Oliveira. A apresentadora, que também realiza o programa Minha Canção na Eldorado FM, foi convidada pela Anonymous Content Brazil, que faz a produção executiva do formato no País.

Os conteúdos apresentados por Sarah não são editados junto aos shows, que possuem vida própria. Na entrevista a seguir, a apresentadora relata sua experiência dentro de um projeto do qual já era fã. Também comenta, entre outros temas, as recorrentes comparações entre esse formato e o Acústico MTV, que ela apresentou por diversas oportunidades, quando foi VJ da emissora.

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Como surgiu o convite para fazer as entrevistas do Tiny Talks?

A CEO da Anonymous, a Bárbara (Teixeira) me ligou e falou: “Eu queria que fosse você”. E eu falei: “Não, não, espera aí, começa de novo. Quem que está vindo para o Brasil?” Acho que foi em julho. Fiquei nervosa, emocionada. Minha filha também está feliz, minha preadolescente, de 12 anos. Super entusiasmada. Ela acha que me apresentou a Doechii porque me mostrou o Tiny Desk dela. E eu deixo ela achar (risos). É um Tiny Desk lindo.

Sarah Oliveira, apresentadora do Tiny Talks, programa de entrevista com os convidados do Tiny Desk Brasil Foto: Fernanda Carvalho/ Divulgação

Sou muito fã do formato. Às vezes eu nem acredito que a gente está fazendo. E não posso falar para ninguém detalhes, então eu fico vibrando comigo mesma! Não posso nem falar para os meus filhos, porque criança pode repetir. É tudo muito emocionante.

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O que mais te agrada no formato?

Acho o formato originalíssimo, essa coisa de a gente ver o artista mais contido. Porque os Acústicos MTV já aconteciam, as jam sessions… E eu já apresentei tantos Acústicos, né? Mas agora é diferente. Ver o artista vulnerável, como se estivesse na sala de casa dele, na mesinha do escritório dele. E a gente assistindo no YouTube. Mesmo quando é orquestrado, como no Mac Miller, por exemplo, com aquelas mulheres no violino… E aí de repente você se dá conta: “Cara, ele está sem fone de ouvido, sem microfone amplificado, sem autotune”. E o dele eu lembro que foi a coisa mais linda, aquelas violinistas no final. E ele morreu logo na sequência. Foi muito icônico esse Tiny Desk.

Um sujeito que toca para estádios lotados e também toca ali, numa experiência musical crua, sem retorno, sem amplificação de nada. É para quem pode

Eu choro em todas as apresentações. Choro mesmo. Já chorava em casa emocionada de ver, sei lá, Billie Eilish, que eu gravei agora o Minha Canção da Eldorado sobre ela. E lá no Tiny Desk a gente via a Billie Eilish sem retorno, a banda dela sem retorno.

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Como mencionou, muita gente tem comparado o Tiny Desk com o Acústico MTV. Para você, que esteve em ambos, são muito diferentes?

Sim, é uma outra emoção, não cabe comparação. Os Acústicos eram grandes produções, com plateia, palco, microfones, amplificação, todos os artistas com retorno. São experiências muito distintas. No Tiny Desk às vezes o artista está com um instrumento do lado dele, uma bateria, um sax, e eu me pergunto: “Cara, como é que consegue?” O público bate palma em certos momentos, e eu fico me segurando pois não quero atrapalhar. E nada, nada atrapalha. É muito mágico. As coisas se encaixam. E de novo, sem querer ser repetitiva, eu recebo eles assim… flutuando. Eles chegam plenos ao estúdio, para as entrevistas. Está sendo uma das melhores experiências da minha vida. E olha que eu estou comemorando 25 anos de carreira e já entrevistei muita gente nessa história, inclusive depois de shows. Mas dessa forma, como eles chegam, é muito diferente.

Os artistas também ficam impactados com o formato.

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Chegam para a entrevista muito emocionados. Três deles choraram. Às vezes a emoção é outra, mas você percebe que a pessoa está impactada. Teve um que compôs uma música durante a entrevista. Tinha acabado de fazer o show, chegou louco, inspirado, e fez uma música. Tem umas coisas bem bonitas.

Sarah Oliveira também apresenta o programa Minha Canção, da Rádio Eldorado Foto: Charles Motta/ Divulgação

E tem isso de não poder contar. As pessoas que vão, os poucos convidados, não sabem quem vai tocar, assim como ninguém sabe com antecedência o que vai ao ar. É a música pela música. É tão valioso isso. E quando a Bárbara anuncia (o artista antes da gravação), as carinhas de surpresa das pessoas e os artistas… Um deles me perguntou assim: “Mas as pessoas não sabiam mesmo que era eu que ia tocar?” O público confia na curadoria, na história que vem antes. Sou louca pelo trabalho dos Amabis (produtora responsável pela supervisão musical), a curadoria deles, o olhar dos três ali junto com a NPR. Eles são minuciosos.

Estou aprendendo muito. Música é um negócio que transforma. Ela transforma o ambiente externo e interno, é muito poderosa. E a música brasileira então… Me desculpem, mas é a melhor do mundo.

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A música aumenta o repertório de vida. Tem um reencontro com o sagrado nisso. A gente precisa disso e essa é uma indústria que, às vezes, perde um pouco desse contato

Acredita que esse lado mais autoral do Tiny Desk também contrasta com uma atualidade na qual a arte pode ter muitas intermediações tecnológicas, desde autotune até inteligência artificial?

Essa pergunta é muito maravilhosa, porque reflete muito a nossa época. E é lindo o Tiny Desk vir nessa contramão. É muito valioso porque são registros que vão ficar para sempre. Por outro lado, o legal da internet é isso, é democrática nesse sentido: toda essa excelência musical vai ficar ali. Então é muito legal que a molecada assista não só porque é um hit e quer conversar sobre esse assunto. Mas também porque são versões que as pessoas fazem para aquele formato. Um sujeito que toca para estádios lotados e também toca ali, numa experiência musical crua, sem retorno, sem amplificação de nada. É para quem pode e isso também está dentro da curadoria.

É um desafio muito específico para o artista pois, nos dias de hoje, é tanto autotune, tanta produção que muitas coisas você já não sabe se é de verdade. Estava fazendo o programa da Billie Eilish, resgatamos os remixes de “Birds of Feather” e até ela dá risada, fica impressionada com o tanto de camada que tem ali. E ok, faz parte da descoberta de todas essas tecnologias. Eu sou aquariana, eu adoro. Mas também é tão bonito ver essa coisa crua, da excelência musical. E essa coisa de perpetuar, de ficar o registro para várias gerações. A música aumenta o repertório de vida. Tem um reencontro com o sagrado nisso. A gente precisa disso e essa é uma indústria que, às vezes, perde um pouco desse contato.

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